{"id":1199,"date":"2018-03-10T23:46:14","date_gmt":"2018-03-11T02:46:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/?p=1199"},"modified":"2020-06-26T04:20:51","modified_gmt":"2020-06-26T07:20:51","slug":"palmares-passado-e-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/palmares-passado-e-presente\/","title":{"rendered":"Palmares &#8211; passado e presente"},"content":{"rendered":"<p>Um texto sobre rela\u00e7\u00f5es afetivas entre homens e mulheres em Cadernos Negros, a partir da leitura e an\u00e1lise de alguns poemas.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"43\" height=\"45\" src=\"http:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/um-adinkra-1.png\" alt=\"\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/p>\n<h2>Palmares &#8211; Passado e Presente<\/h2>\n<p>A Rela\u00e7\u00e3o Afetiva entre o Homem e a Mulher na Poesia dos Cadernos Negros<\/p>\n<h2>Por Esmeralda Ribeiro<\/h2>\n<p>Segundo o historiador D\u00e9cio Freitas, no Quilombo dos Palmares &#8220;a insufici\u00eancia de mulheres gerou conflitos violentos, \u00e0s vezes sangrentos, em torno da posse de mulheres. Para preservar a coes\u00e3o social, instituiu-se o casamento poli\u00e2ndrico. Uni\u00e3o da mulher com at\u00e9 cinco maridos, todos viviam no mesmo espa\u00e7o f\u00edsico, no mesmo Mocambo&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 consensual a opini\u00e3o sobre a exist\u00eancia de uma diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a como o homem e a mulher contempor\u00e2neos encaram a rela\u00e7\u00e3o afetiva amorosa e, mesmo que o amor n\u00e3o esteja ligado exclusivamente ao casamento, a situa\u00e7\u00e3o de escassez de mulheres \u00e9 elucidativa. Podemos partir da\u00ed, dando \u00eanfase para a situa\u00e7\u00e3o de casamento poli\u00e2ndrico em Palmares, para tentar pensar como esse relacionamento afetivo amoroso mais desreprimido se refletiria hoje na po\u00e9tica feminina e masculina.<\/p>\n<p>A poesia \u00e9 o melhor instrumento para polarizarmos entre o passado e o presente porque:\u00a0&#8220;O poeta v\u00ea a pr\u00f3pria interioridade na qual se reflete, retrata o mundo&#8221;, afirma o escritor e jornalista Fernando Paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Relendo as poesias dos Cadernos Negros tive algumas inquieta\u00e7\u00f5es: quem com esse passado acumulado mostra na poesia uma afetividade prazerosa? E, quem, afetivamente, desceu o &#8220;morro&#8221;, isto \u00e9, quem em seus poemas n\u00e3o reflete a afetividade que os Palmarinos devem ter possu\u00eddo? \u00c9 o escritor ou a escritora negra?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.quilombhoje.com.br\/ensaio\/esmeralda\/clipartMulhernegra1.gif\" width=\"100\" height=\"135\" \/><\/p>\n<p>Na po\u00e9tica amorosa masculina \u00e9 forte a imagem da sedu\u00e7\u00e3o, da afetividade. Amor e erotismo se fundem numa coisa s\u00f3:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><strong>BEN\u00c7\u00c3O DAS \u00c1GUAS<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Deveria ser pleno<\/em><br \/><em> \u00e9 m\u00ednimo<\/em><br \/><em> cinza<\/em><br \/><em> \u00famido<\/em><br \/><em> no \u00e1pice de um feriado<\/em><br \/><em> um dia nublado<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A plenitude por dentro<\/em><br \/><em> desejo<\/em><br \/><em> o que eu queria<\/em><br \/><em> surpresa<\/em><br \/><em> o sol n\u00e3o veio<\/em><br \/><em> e ganho a ben\u00e7\u00e3o que chove<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Deusa das \u00e1guas, ela deixa o chuveiro<\/em><br \/><em> e se instala na sala de minha retina<\/em><br \/><em> ela e sua toalha-turbante<\/em><br \/><em> perfeita sereia mesmo longe d&#8217;areia<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Que sorte eu aqui t\u00e3o perto<\/em><br \/><em> no meio do dia e das \u00e1guas nubladas<\/em><br \/><em> a sedu\u00e7\u00e3o ao vivo<\/em><br \/><em> l\u00e1bios<\/em><br \/><em> olhos<\/em><br \/><em> a tez<\/em><br \/><em> e o verdejante turbante<\/em><br \/><em> coquetel de cores<\/em><br \/><em> tes\u00e3o por todos os poros<\/em><br \/><em> no m\u00ednimo, o m\u00e1ximo<\/em><br \/><em> domingo total<\/em><br \/><em> no qual mergulhei de cabe\u00e7a.<\/em> <br \/> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(Jamu Minka, in Cadernos negros 19)<\/p>\n<p>A met\u00e1fora <em>Sereia<\/em> ilustra bem o poder de sedu\u00e7\u00e3o que a mulher exerce sobre o homem. A excita\u00e7\u00e3o sugere a imin\u00eancia do ato sexual. Ele est\u00e1 disposto a se entregar de corpo e alma. Na po\u00e9tica masculina o desejo do &#8220;amor infinito&#8221; \u00e9 colocado sem nenhum pudor no papel:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><strong>CANTO \u00c0 AMADA<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o fosse sua boca um luar<\/em><br \/><em> E seus olhos<\/em><br \/><em> Cintilantes estrelas<\/em><br \/><em> N\u00e3o fossem suas m\u00e3os<\/em><br \/><em> Perfumadas p\u00e9talas<\/em><br \/><em> E teus bra\u00e7os<\/em><br \/><em> Um leito acolhedor<\/em><br \/><em> N\u00e3o fosse sua vida minha vida<\/em><br \/><em> E teu corpo minha inspira\u00e7\u00e3o<\/em><br \/><em> Ainda assim te adoraria<\/em><br \/><em> E te chamaria: meu amor<\/em><br \/><em> Pois a ti eu perten\u00e7o<\/em><br \/><em> Como a pr\u00f3pria pele&#8230;<\/em> <br \/> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(M\u00e1rcio Barbosa, in Cadernos negros 5 )<\/p>\n<p>&#8220;As oferendas&#8221;, &#8220;os cantos&#8221;, d\u00e3o metaforicamente a sensa\u00e7\u00e3o de que eles nunca est\u00e3o s\u00f3s. Para isso regam a planta do amor: para que se enra\u00edze em seus cora\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><strong>OFERENDA PARA A MINHA AMADA<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O vento soprou uma semente<\/em><br \/><em> leve como uma pluma<\/em><br \/><em> linda como uma estrela!<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>E ela caiu e penetrou de mansinho<\/em><br \/><em> nas terras desertas do meu cora\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>No meu peito nasceu uma planta<\/em><br \/><em> que est\u00e1 crescendo lentamente<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>E todas as manh\u00e3s<\/em><br \/><em> eu a rego carinhosamente<\/em><br \/><em> com sonhos e atitudes<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Sinto a cada dia que passa<\/em><br \/><em> que as ra\u00edzes<\/em><br \/><em> penetram mais fundo<\/em><br \/><em> na medula do meu ser<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Levando-me a cantar com alegria<\/em><br \/><em> porque \u00e9 grande a magia<\/em><br \/><em> que est\u00e1 encantando o meu viver!<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>E aguardando ansioso<\/em><br \/><em> o tempo da colheita<\/em><br \/><em> no &#8220;sim&#8221; do teu cora\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Passo dias e noites torcendo<\/em><br \/><em> que flores e frutos brotem<\/em><br \/><em> para ofert\u00e1-los a ti, Vida<\/em> <br \/> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(Oubi Ina\u00ea Kibuko, in Cadernos negros 7)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.quilombhoje.com.br\/ensaio\/esmeralda\/cliparthomemnegro2.gif\" width=\"42\" height=\"135\" \/><\/p>\n<p>Na po\u00e9tica feminina negra a afetividade caminha junto com a dor. A escritora trabalha com o sentimento do &#8220;infinito enquanto dure&#8221;, embora ela n\u00e3o se entregue de corpo e alma. A porta da emo\u00e7\u00e3o precisa ser aberta. Ela dificilmente cultua no poema a imagem do homem que a seduz. Se o cheiro dele agradar, ele vem e jazz&#8230; Mas a porta da emo\u00e7\u00e3o continua fechada, ent\u00e3o ela o deixar\u00e1 escapar entre os dedos. Seria como apanhar a \u00e1gua do rio com as m\u00e3os:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><strong>FLUIDA LEMBRAN\u00c7A<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>No l\u00edquido do copo<\/em><br \/><em> entorno a sua fluida<\/em><br \/><em> lembran\u00e7a.<\/em><br \/><em> Bebo aos goles<\/em><br \/><em> o seu doce caldo<\/em><br \/><em> armazenado e curtido<\/em><br \/><em> em minha mem\u00f3ria<\/em><br \/><em> e, quando depois<\/em><br \/><em> me erro nos passos<\/em><br \/><em> inebriada dos meus enganos<\/em><br \/><em> toco o vazio de sua aus\u00eancia<\/em><br \/><em> percebendo, ent\u00e3o<\/em><br \/><em> que voc\u00ea me escorre dos sonhos<\/em><br \/><em> Tal qual a baba indom\u00e1vel<\/em><br \/><em> que da boca do b\u00eabado sonolento<\/em><br \/><em> escapa.<\/em> <br \/> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, in Cadernos negros 18)<\/p>\n<p>Ela imp\u00f5e limites, por\u00e9m o homem que conseguir ultrapassar esses limites vai encontrar uma mulher que exp\u00f5e a sua solid\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><strong>LIMITES<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Abro as minhas portas e<\/em><br \/><em> a conformidade das suas coisas vem<\/em><br \/><em> numa adequa\u00e7\u00e3o de causa e efeito.<\/em><br \/><em> Fecho minhas portas e <\/em><br \/><em> confusamente, as suas coisas v\u00e3o<\/em><br \/><em> numa inadequa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o e desrespeito<\/em><br \/><em> Diante das inconformidades das minhas coisas.<\/em><br \/> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(Regina Helena, in Cadernos negros 9)<\/p>\n<p>Quando o homem abre a porta da emo\u00e7\u00e3o &#8211; e por insensatez deixa marcas, sofrimentos, &#8211; se ele retornar \u00e9 para fechar as feridas. Da\u00ed ele descobrir\u00e1 que ela n\u00e3o havia dado todas as chaves para ele:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><strong>&#8230;NO REGRESSO<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>No dia em que retornares<\/em><br \/><em> provavelmente me encontrar\u00e1s<\/em><br \/><em> entre a pia e o fog\u00e3o.<\/em><br \/><em> Antes que tua boca te anuncie,<\/em><br \/><em> procurarei retirar a gordura densa<\/em><br \/><em> nas banheiras anunciadas na tev\u00ea.<\/em><br \/><em> Usarei o xampu que dar\u00e1<\/em><br \/><em> mobilidade aos meus cabelos<\/em><br \/><em> farei teatro em tua presen\u00e7a.<\/em><br \/><em> Te convencerei de que minha disposi\u00e7\u00e3o<\/em><br \/><em> \u00e9 a mesma, te envolverei de tal forma&#8230;<\/em><br \/><em> farei morrer de inveja a melhor das atrizes.<\/em><br \/><em> Carregarei de ternura o teu cora\u00e7\u00e3o<\/em><br \/><em> quero que me embales!<\/em><br \/><em> Deixarei deitares teus l\u00e1bios nos meus<\/em><br \/><em> grossos e banhados em veneno doce<\/em><br \/><em> farei com que bebas atrav\u00e9s deles minha alma<\/em><br \/><em> e que nos consumamos os dois<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Te carregarei para o inferno<\/em><br \/><em> em que minha vida transformaste.<\/em><br \/> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(S\u00f4nia F\u00e1tima, in Cadernos negros 19)<\/p>\n<p>H\u00e1 muito a pesquisar, mas na po\u00e9tica afetiva masculina a porta est\u00e1 sempre aberta, o poeta diz &#8220;ela me seduz, vou mergulhar de cabe\u00e7a, vou pertencer a ela como a pr\u00f3pria pele, vou regar o amor todos os dias&#8221;, mostrando a dualidade for\u00e7a\/fragilidade. Isso nos remete a Palmares. Os homens eram fortes enquanto guerreiros. Mas l\u00e1 talvez houvesse a fragilidade afetiva porque, para ter uma mulher ao lado, eram levados a conflitos sangrentos pela posse da amada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.quilombhoje.com.br\/ensaio\/esmeralda\/cliparafricana.gif\" width=\"82\" height=\"135\" \/><\/p>\n<p>A presen\u00e7a da mulher deu estabilidade social e familiar a Palmares. As condi\u00e7\u00f5es sociais foram respons\u00e1veis pela implanta\u00e7\u00e3o do modelo de fam\u00edlia poli\u00e2ndrica. A consequ\u00eancia desse modelo deve ter sido, para a mulher, uma certa &#8220;liberdade amorosa&#8221;, de poder estar com dois, tr\u00eas ou at\u00e9 cinco homens vivendo sob o mesmo teto. Como afirma D\u00e9cio Freitas, &#8220;os homens eram obedientes \u00e0 mulher, que mandava em sua vida e no trabalho&#8221;.<\/p>\n<p>Concluo que essa condi\u00e7\u00e3o possibilitou \u00e0 mulher Palmarina viver uma vida de prazer relativo, apesar do estado permanente de guerra contra os senhores de escravos. A mulher Palmarina p\u00f4de escolher com qual dos parceiros ela teria os seus filhos, p\u00f4de escolher, entre os parceiros, aquele que a levaria ao desejo de na cama colar em seu corpo como tatuagem, numa harmonia de corpos, aquele que a levaria de colo para uma infinita paix\u00e3o. Na afetividade amorosa era a mulher Palmarina que tinha todas as armas e tamb\u00e9m o poder de seduzir e de querer ser seduzida. Mas a po\u00e9tica feminina n\u00e3o herdou nada dessa &#8220;liberdade amorosa&#8221; de suas ancestrais nos textos. Destru\u00edram Palmares e destru\u00edram tamb\u00e9m seu prazer amoroso. A po\u00e9tica feminina n\u00e3o tem nada a ver com o que deve ter sido o passado hist\u00f3rico afetivo das mulheres Palmarinas. Agora a hist\u00f3ria \u00e9 outra. O sentimento militante feminista predomina em sua po\u00e9tica. Ela deixa bem expl\u00edcito que as portas n\u00e3o est\u00e3o mais abertas. Seus sentimentos est\u00e3o sempre em guarda. \u00c9 preciso saber tocar o interfone dos sentimentos. Ela avisa ao homem que ele n\u00e3o encontrar\u00e1 uma mulher submissa e sim uma mulher que decide pelo seu pr\u00f3prio corpo, uma mulher que decide sobre suas vontades. Ela falar\u00e1 tudo isso de uma forma dura e \u00e0s vezes fria, s\u00e3o poucos os poemas nos quais o homem a seduz. Pode-se citar uma raridade. Um poema sem t\u00edtulo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Meu Zumbi<\/em><br \/><em> De corpo suado<\/em><br \/><em> De olhos meigos e doces<\/em><br \/><em> De boca ardente&#8230;<\/em><br \/><em> Nenhuma paisagem se iguala<\/em><br \/><em> \u00e0 vis\u00e3o que tenho de voc\u00ea<\/em><br \/><em> Explos\u00e3o de ra\u00e7a em forma de ser<\/em><br \/><em> o que mais quero:<\/em><br \/><em> Entrela\u00e7ar nossas peles retintas<\/em><br \/><em> Me animar de vida,<\/em><br \/><em> Buscar meu c\u00e9u em sua terra<\/em><br \/><em> Saciar minha sede de mel em seu mist\u00e9rio.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Tatuar-te em meu corpo<\/em><br \/><em> para ter a certeza de t\u00ea-lo<\/em><br \/><em> preso-colado-filtrado em mim<\/em><br \/><em> na pr\u00f3pria pele<\/em><br \/><em> rasgando a epiderme<\/em><br \/><em> que nem laser apaga<\/em><br \/><em> que aos poucos me rasga<\/em><br \/><em> e se fixa e me marca<\/em><br \/><em> num uno indivis\u00edvel<\/em><br \/> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(Lia Vieira, in Cadernos negros 15)<\/p>\n<p>No geral, a mulher desceu do &#8220;morro&#8221;, porque Amor rom\u00e2ntico n\u00e3o combina com feminismo. A todo momento ela tem que mostrar poeticamente que \u00e9 forte, s\u00f3 os fortes ganham a batalha, ganham o poder. Ela n\u00e3o permite expor seus desejos rom\u00e2nticos sobre uma folha de papel. Est\u00e1 ocorrendo uma invers\u00e3o de pap\u00e9is, agora os homens s\u00e3o escassos, s\u00e3o as mulheres que, metaforicamente, t\u00eam de guerrear para ter um parceiro, talvez seja por isso que, na po\u00e9tica feminina, a dor e solid\u00e3o s\u00e3o retratadas constantemente. Ao mesmo tempo em que ela quer ter um parceiro, ela tamb\u00e9m quer medir for\u00e7as com ele. Ela n\u00e3o abaixa as guardas, \u00e9 um elo que n\u00e3o se quebra. Poeticamente s\u00e3o os homens que querem um relacionamento duradouro, eterno e as mulheres um amor infinito, nem que seja por um dia ou por alguns segundos.<\/p>\n<p>Para terminar: a po\u00e9tica masculina continua na Serra da Barriga, eles herdaram dos seus ancestrais o deleite, sentem o prazer pela amada com tanta intensidade como em Palmares. Quem sabe por ter que dividir com outros homens a aten\u00e7\u00e3o da mesma mulher, seu amor expresso na poesia \u00e9 harmonioso, um amor na mesma sintonia, \u00e9 constante a imagem de rolar na cama, chegando ao \u00eaxtase total. Amar \u00e9 bom demais e por isso eles realizam, concretizam no papel, lind\u00edssimos poemas de amor.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>Esmeralda Ribeiro<\/strong> \u00e9 escritora, jornalista e faz parte do Quilombhoje desde 1982. Tem atuado no sentido de incentivar a participa\u00e7\u00e3o da mulher negra na literatura. Publicou &#8220;Malungos &amp; Milongas&#8221;, conto, em 1988. Tem poemas e contos publicados em diversas antologias no Brasil e no exterior.<\/em><\/p>\n<p>Bibliografia Citada<\/p>\n<p>Cadernos Negros 5 (org. Cuti). S\u00e3o Paulo: Ed. dos Autores, 1982 (poemas)<\/p>\n<p>Cadernos Negros 7, 9, 13 e 15 (org. Quilombhoje). S\u00e3o Paulo: Ed. dos Autores, 1984, 1986, 1990 e 1992 (poemas).<\/p>\n<p>Cadernos Negros 19 (org. Quilombhoje). S\u00e3o Paulo: Quilombhoje: Ed. Anita, 1996 (poemas).<\/p>\n<p>FREITAS, D\u00e9cio. Palmares &#8211; a guerra dos escravos. Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Graal, 1982.<\/p>\n<p>PAIX\u00c3O, Fernando. O que \u00e9 poesia. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1982.<\/p>\n<p>Compartilhe<\/p>\n<p>\t\t\t<!-- Simple Share Buttons Adder (7.4.18) simplesharebuttons.com --><div id=\"ssba-classic-2\" class=\"ssba ssbp-wrap left ssbp--theme-1\"><div style=\"text-align:left\"><a data-site=\"\" class=\"ssba_facebook_share\" href=\"http:\/\/www.facebook.com\/sharer.php?u=https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1199\"  target=\"_blank\" ><img src=\"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-content\/plugins\/simple-share-buttons-adder\/buttons\/somacro\/facebook.png\" style=\"width: 30px;\" title=\"Facebook\" class=\"ssba ssba-img\" alt=\"Share on Facebook\" \/><div title=\"Facebook\" class=\"ssbp-text\">Facebook<\/div><\/a><a data-site=\"\" class=\"ssba_twitter_share\" href=\"http:\/\/twitter.com\/share?url=https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1199&amp;text=Palmares%20%E2%80%93%20passado%20e%20presente%20\"  target=&quot;_blank&quot; ><img src=\"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-content\/plugins\/simple-share-buttons-adder\/buttons\/somacro\/twitter.png\" style=\"width: 30px;\" title=\"Twitter\" class=\"ssba ssba-img\" alt=\"Tweet about this on Twitter\" \/><div title=\"Twitter\" class=\"ssbp-text\">Twitter<\/div><\/a><a data-site=\"\" class=\"ssba_google_share\" href=\"https:\/\/plus.google.com\/share?url=https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1199\"  target=&quot;_blank&quot; ><img src=\"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-content\/plugins\/simple-share-buttons-adder\/buttons\/somacro\/google.png\" style=\"width: 30px;\" title=\"Google+\" class=\"ssba ssba-img\" alt=\"Share on Google+\" \/><div title=\"Google+\" class=\"ssbp-text\">Google+<\/div><\/a><\/div><\/div><br \/>\n\t\t\t<object \u2026 width=\"510\" height=\"80\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.quilombhoje.com.br\/banner-geral-atual.swf\" \/><param name=\"quality\" value=\"high\" \/><embed src=\"http:\/\/www.quilombhoje.com.br\/banner-geral-atual.swf\" quality=\"high\" width=\"510\" height=\"80\"><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um texto sobre rela\u00e7\u00f5es afetivas entre homens e mulheres em Cadernos Negros, a partir da leitura e an\u00e1lise de alguns poemas. Palmares &#8211; Passado e Presente A Rela\u00e7\u00e3o Afetiva entre o Homem e a Mulher na Poesia dos Cadernos Negros Por Esmeralda Ribeiro Segundo o historiador D\u00e9cio Freitas, no Quilombo dos Palmares &#8220;a insufici\u00eancia de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1200,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1199"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1199"}],"version-history":[{"count":43,"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1199\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1682,"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1199\/revisions\/1682"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.quilombhoje.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}